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quarta-feira, 8 de junho de 2016

A maneira mais simples de fazer cerveja em casa (sem equipamentos).

Faça cerveja em casa



Se você, apreciador de cervejas artesanais, sempre teve vontade de fazer a sua própria cerveja mas não faz por que acha que precisa de uma montanha de equipamentos, saiba que existe alternativa. O objetivo deste texto é incentivar a produção artesanal de maneira simples, como um empurrão para o iniciante tirar o sonho de cervejeiro caseiro do papel.
A resposta à pergunta que não quer calar: posso fazer cerveja sem investir nada? Não. Mas é possível começar gastando quase nada, assim você sente o gostinho e decide se quer partir para uma produção mais dedicada ou se vai manter apenas como brincadeira de fim de semana. Vamos explicar da forma mais sucinta possível o processo, sem nos atermos aos detalhes e nomes técnicos de cada etapa com o objetivo de obter cerveja com o mínimo de equipamento possível. Queremos aqui difundir a informação de que o processo de fabricação artesanal de cervejas, apesar de trabalhoso, pode ser muito simples.

Qual será o resultado final? Vou ganhar uma medalha com a minha cerveja? Minha cerveja vai ficar boa? A maior falha desta forma de fazer cerveja está no processo fermentação, pois não há controle de temperatura, o que pode comprometer seriamente o resultado final, principalmente se houver muita variação na temperatura. Para evitar maiores problemas, o ideal é escolher um local da sua casa com temperatura ambiente amena (próxima de 18°C ) e com pouca variação nesta temperatura. Se você tiver um porão em casa, bingo, é lá que você vai fermentar a sua cerveja.
Como você não irá utilizar um densímetro, para acompanhar a densidade específica do seu mosto e o resultado final, você não saberá qual a graduação alcoólica exata da sua cerveja. A graduação alcoólica estimada desta receita é 5,5%, amargor aproximado de 44 IBUs e coloração 8 SRM.

Materiais necessários:


- Termômetro (para medir água até aproximadamente 70° C).
- 1 m² de tecido tipo Voil.
- Cooler ou caixa térmica que comporte duas vezes a medida da sua receita.
- Panela que comporte a medida da sua receita com folga (para evitar que transborde durante a fervura).

Como funciona o processo?

 Fazer cerveja é fermentar os açúcares do malte. Portanto, precisamos extrair os açúcares do malte para formar o líquido fermentável (mosto). O mosto será fervido por 60 minutos, adicionado de lúpulo e, ao fim, fermentado por leveduras. Após a fermentação, a cerveja precisa ser carbonatada antes do consumo. 

Insumos:


Como exemplo, utilizaremos uma receita simples de American Pale Ale, que leva:
 - 1 Kg de malte Pilsen (moído); 
 - 200g de malte Pale (moído);
 - 100g de malte Caramunich (moído);
 - 50g lúpulo Citra;
 - 1 pacote Levedura Fermentis Safale US05;
 - 10 litros de água mineral. (a embalagem será utilizada na fermentação);
 - 1 litro de álcool 70% (para sanitização);
 - 3kg de gelo (para resfriar o mosto).

Como você vai utilizar o malte moído e não tem um moedor em casa, solicite à loja de insumos que moa o malte para você. A maioria destas lojas entrega o malte moído e na quantidade certa sem cobrar a mais por isso.

A primeira e mais importante regra é limpeza e sanitização. Tudo o que for tocar a sua cerveja precisa estar absolutamente limpo. E tudo o que for tocar sua cerveja após a fervura precisa ser sanitizado. Se você não cuidar da limpeza e sanitização, pode ter que jogar tudo fora. Entendeu?
Para sanitizar uma superfície ou um equipamento, será necessário mantê-lo em contato com álcool 70% durante 10 minutos. Você pode utilizar papel toalha ou um borrifador para auxiliá-lo no processo. Cuidado com restos de álcool na sanitização de garrafas para não influenciar no sabor da cerveja.

Portanto, a partir de agora assumiremos que todos os seus materiais estarão limpos e/ou sanitizados:

Primeira Etapa - Mash


Coloque o voil dentro do seu cooler ou caixa térmica, de maneira a formar uma bolsa, prendendo nas bordas (você pode usar barbante, por exemplo) para que se possa adicionar água, os grãos e depois retirar tudo antes da fervura.

Cooler com Voil
Imagem: goldilockshomebrewing.com


 Aqueça 5 litros de água até 75°C  e adicione ao cooler. Adicione os grãos moídos, mexa bem e faça com que a temperatura chegue a 68ºC (adicionando pequenas quantidades de água quente ou fria). Esta temperatura deverá ser mantida durante 60 minutos. Você deverá adicionar mais 2 litros de água para manter a temperatura durante este período, chegando a 7 litros totais ao fim desta etapa.

Feche o saco e utilize-o para retirar os grãos do cooler; aguarde até que o líquido do saco escorra (você pode torcer o saco de grãos para acelerar o processo, mas não exagere).

Transfira o mosto do cooler para a sua panela, onde irá acontecer a fervura.

Segunda Etapa - Fervura


Ligue fogo forte e aguarde iniciar a fervura. Se a panela for larga o suficiente, ligue duas bocas do fogão. O mosto deverá ferver por 30 minutos.

Observações:
A fervura deverá ocorrer com a panela aberta (destampada);
Cuidado ao adicionar o lúpulo, a fervura pode subir quando você fizer isso.

Utilize um timer regressivo para contar o tempo de fervura, iniciando em 30 minutos quando o liquido começar a borbulhar intensamente.

Faltando 20 minutos para o fim da fervura, adicione cerca de 1/5 do lúpulo (10g).
Faltando 10 minutos para o fim da fervura, adicione 1/3 do lúpulo restante(13g).
Ao fim da fervura, adicione o restante do lúpulo e desligue o fogo.


Agora você deverá tentar manter a panela fechada sempre que possível (lembre-se que após a fervura o mosto fica suscetível a contaminação por leveduras e bactérias presentes no ar) e resfriar o mosto até a temperatura de 30°C (sanitize o termômetro para medir).
Quanto mais rápido o mosto for resfriado, melhor. Para resfriar mais rapidamente, você poderá utilizar um banho maria com água gelada. Você pode encher a pia da cozinha com gelo e água e colocar a panela, mexendo com uma colher sanitizada, até atingir a temperatura desejada.

Terceira Etapa - Fermentação


Transfira o mosto para a embalagem da água (galão plástico sanitizado), feche e aguarde o mosto resfriar até a temperatura ambiente (é possível acelerar o processo na geladeira ou freezer).
Agite o mosto por 5 minutos para incorporar oxigênio.
Adicione a levedura.

 Durante o processo de fermentação a levedura irá converter os açúcares do mosto em álcool e gás carbônico.  Para evitar que o gás carbônico liberado na fermentação exploda o fermentador, nós precisamos de uma maneira de permitir que o gás seja liberado sem que ocorra entrada de ar e contaminação externa. Para isso, o ideal é utilizar um válvula do tipo Airlock, que fica cheia de água e cumpre com esta função. Entretanto, caso não queira investir na airlock, você poderá utilizar uma bexiga no lugar da tampa do seu fermentador. Faça alguns furos na bexiga com um alfinete de forma que a pressão criada no interior do fermentador possa sair, sem, entretanto, permitir a entrada de ar e possível contaminação do mosto. 
Mantenha seu fermentador em local fresco (18°C é o ideal) e abrigado da luz por 15 dias. 

Ao fim dos 15 dias, sua fermentação já deverá estar bem estabilizada, a levedura deve ter floculado e se depositado no fundo do fermentador.

Caso seja possível deixar o seu fermentador na geladeira, na posição horizontal, por alguns dias (10 dias seria o ideal) antes de engarrafar, o frio irá ajudar a cerveja a maturar e a sedimentar a levedura.

Engarrafamento e Priming

Nossa cerveja está quase pronta, falta apenas o gás!

Com cuidado para não movimentar a levedura que está no fundo, transfira a cerveja para garrafas PET sanitizadas (As de refrigerante e água com gás são as mais resistentes). Evite ao máximo o contato da cerveja com o oxigênio. Tente realizar o processo sem fazer splash. É possível minimizar o contato com oxigênio utilizando um sifão e uma mangueira sanitizada conectada a ele, deixando que a cerveja seja encha a garrafa de baixo para cima, empurrando o oxigênio para fora.

Como o CO2 gerado durante a fermentação não pode ser retido na cerveja, forçamos para que ocorra um pouco mais de fermentação dentro da garrafa fechada para que a cerveja incorpore o gás. Para isso, adicionaremos açúcar para reativar a fermentação dentro da garrafa.
Adicione 6g de açúcar por litro de cerveja. Em caso de dúvida na quantidade de açúcar, você pode usar aqueles envelopes de açúcar que são usados em restaurantes e cafeterias. Alguns vem com exatos 6g.


Mantenha a garrafa de cerveja bem fechada, em temperatura ambiente (idealmente entre 14 e 18°C), abrigada de luz direta, e aguarde de 7 a 15 dias até que a cerveja esteja carbonatada. 
Resfrie por 12h ou mais e aprecie sua criação.

Caso você esteja inseguro sobre algum passo ou tenha alguma dúvida, entre em contato comigo pelo e-mail daniel@loucosporales.com.br e eu vou tentar esclarecer. Suas dúvidas ou sugestões serão usadas como base para atualização deste texto.

Se fizer sua cerveja em casa e gostar da brincadeira, você pode se associar à Acerva, Associação dos Cervejeiros Artesanais. Sempre tem muita gente bacana trocando conhecimento e experiências sobre o assunto, além, é claro, de beber ótimas cervejas. Este é o site da Acerva Paranaense: http://acervapr.com.br/

Nos conte dos seus resultados na caixa de comentários aqui em baixo, ficarei muito feliz em saber como ficou a sua cerveja.


sábado, 9 de maio de 2015

A Importância da Cerveja Local

No último Festival Brasileiro da Cerveja, acontecido em Blumenau no mês de março, participamos de algumas ações no stand do Beertone, como comentamos aqui. E foi lá que tivemos contato com alguns produtos com os dizeres: "Taste global, drink local" que, em tradução livre quer dizer: "Experimente globalmente, beba localmente".

Imagem: bebidaliberada.com.br


Taste global/drink local é um paralelo ao conceito mundialmente difundido que diz: "Think globally/Act locally" - Pense globalmente, aja localmente. Pensar globalmente e agir localmente aplica-se a uma grande variedade de contextos, como ecologia, negócios ou planejamento, mas como poderia funcionar para a cerveja?

Taste Global
É mais do que óbvio que se você quer conhecer mais sobre cerveja, ou sobre qualquer coisa que é produzida globalmente, você deverá provar de várias fontes diferentes. Falando especificamente de cerveja, os variados estilos são reflexo de tradições locais na produção da bebida. Existem, inclusive, variações de estilos tradicionais de acordo com características locais. Em suma, para entender de cerveja é imperativo conhecer cervejas do mundo todo e quanto maior a variedade, melhor.

Drink Local
À primeira vista, faz sentido apoiar as cervejarias locais, desenvolver a cena local e fomentar aquilo que tanto admiramos e tantas emoções nos proporciona. Prestigiar os produtores locais só traz vantagens para todos, pois possibilita o aumento de suas estruturas, a pulverização da rede de distribuição, todo mundo sai ganhando.

Mas eu gostaria de ir além e pensar no caráter da bebida e que influências isso poderia ter no consumo, por que outra razão você deveria beber cervejas locais? Pelo mesmo motivo que não é costumeiro beber leite importado. Assim como o leite, a cerveja é muito melhor quando está fresca e é por esta razão que você talvez nunca conheça realmente uma cerveja até que possa degustá-la diretamente "da teta da vaca".

Após pasteurizada, envasada, transportada, aquecida e resfriada, sua cerveja apresentará atenuação dos aromas de lúpulo, o dry hopping pode aparecer de maneira menos marcante, a carbonatação e o creme também serão afetados. Por exemplo, uma cerveja que, quando fresca, apresente um delicado aroma de pêssego, rapidamente pode perder esta característica, deixando mais evidentes aromas e sabores menos sutis. Isso é muito válido para IPAs e, principalmente, American IPAS, cervejas que se sustentam no amargor e frescor do lúpulo. Os sabores frutados e cítricos são os primeiros a desaparecerem na "evolução" da cerveja na garrafa.

Imagem:100hdwallpapers.com


É por isso que growlers são uma forma muito interessante de se beber cerveja, pois você terá a experiência mais próxima possível do fabricante; a cerveja fica pronta e vai direto para a sua boca. =)

Por essas e outras, acreditamos que a melhor cerveja que você poderá obter possivelmente será uma cerveja local, produzida recentemente e, de preferência, não pasteurizada. Vale também a nossa dica antiga: "É bom frequentar bares onde o chope tem mais saída. Bar vazio significa chope velho."

Além das vantagens de tomar a cerveja fresca, ao fomentar a indústria local você contribui com um efeito muito interessante: Chope local de altíssima qualidade sendo servido em bares e custando o mesmo ou menos do que Brahma ou Heineken. Somos prova disso e temos vários exemplos aqui em Curitiba.


A nós, cabe o papel de entender e executar o "Taste global/Drink local", só temos a ganhar com isso. Te vejo no São Francisco!


Image:etilicos.com



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Independência cervejeira da Escócia.

Assunto muito comentado recentemente, o referendo realizado na Escócia sobre a independência do país do Reino Unido também guarda relação com questões do universo cervejeiro.



Disputas e discussões entre países vizinhos, com culturas distintas, usualmente levam em consideração, além de guerras e a história em si, questões gastronômicas. Países com clima frio têm as bebidas alcoólicas muito arraigadas em sua tradição, o que acalora ainda mais este tipo de discussão. Afinal, se o fato dos escoceses andarem com os joelhos de fora no inverno, com temperaturas congelantes, não for suficiente para justificar uma boa dosagem de álcool no sangue, não sei o que mais justificaria. Todavia, na tradição do Reino Unido existe a ideia de que, acima da fronteira norte da Inglaterra, só se vive de Whisky. E isso não é verdade. Prova disso é o nosso próprio Blog, cuja primeira postagem trata, justamente, de uma cerveja escocesa, a Williams Red Ale, além de tantas outras vezes em que a Brewdog apareceu por aqui.

A Escócia tem tradição em fabricar cervejas de alta fermentação com elevada carga de malte e presença mais tímida de lúpulos, o que deu origem ao estilo Scottish Ale, também fabricado com maestria pela Bodebrown, de Curitiba.

De um lado a Inglaterra com suas Pale Ales, suas India Pale Ales. Do outro, a Escócia com as Scotish Ales (e com a Brewdog, é claro).

Neste embate, nós é que saímos ganhando e podemos experimentar todos esses estilos. E, em especial aqui nas Américas podemos desfrutar do mix desses estilos em várias cervejas, podendo encontrar uma Scotish Ale mais lupulada ou uma India Pale Ale com cacau e tudo mais o que a imaginação dos nossos cervejeiros alcançar.

Nesta disputa você fica com quem? Brewdog Punk IPA ou Fullers London Pride?

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Conheça as Session Beers


Imagem: http://thedrinknation.com
 
Você já deve ter se deparado em algum momento com o termo Session Beer. Talvez você tenha até descoberto empiricamente uma cerveja que, durante uma noite, tenha se destacado justamente por ser aquela que você poderia beber por muito tempo, aquela cerveja que te faz repetir e acaba ficando com você a noite toda.

A origem do termo não está bem documentada, mas várias fontes remetem aos longos turnos de trabalho adotados durante a primeira guerra mundial, que permitiam curtos intervalos entre as horas de trabalho, intervalos denominados sessions, que obrigavam os trabalhadores a consumir bebidas de baixa graduação alcoólica para que pudessem voltar ao posto sem sinais de intoxicação pelo álcool.

Portanto, session beers são cervejas de baixa graduação alcoólica, que podem ser consumidas em grandes quantidades sem causar excessiva intoxicação, o que, tipicamente, significa uma cerveja com graduação alcoólica abaixo de 5%.

Mas não se engane; só por que uma cerveja possui baixa graduação alcoólica não quer dizer que ela tenha sabor mais suave. Existem dezenas de milhares de diferentes tipos de session beers com os mais diversos sabores. Um bom exemplar disso é a F#%*ing Beer Fresh, uma IPA refrescante, amarga e com apenas 4,8% de álcool. A Guinness, com seus 4,2% também pode ser considerada uma session beer.

Comente e conte-nos mais sobre suas experiências, qual a sua cerveja preferida para longas horas de companhia?

Fontes:
http://www.beeradvocate.com/articles/653/
http://blog.beeriety.com/2010/05/20/what-is-session-beer/

Imagem: www.craftbeer.com
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