Recentemente, tivemos notícia de um grande experimento, contando com mais de 130 voluntários, com idades entre 21 e 70 anos, os quais passaram por um teste cego com 3 grandes marcas de lagers europeias, Budvar, Heineken e Stella Artois. O resultado? As pessoas não conseguem distinguir as três cervejas. (Veja a notícia original)
Segundo os pesquisadores, a preferência dos consumidores por uma ou outra marca se resume, basicamente, ao esforço dessas em marketing e na apresentação das embalagens, relegando a um segundo plano as percepções sensoriais da bebida.
Ao ver isso, a primeira coisa que pensei, "que absurdo", essas pessoas não tem palato. Em um segundo momento, "talvez essas cervejas na Europa possuam realmente uma qualidade mais parelha, se comparado aos exemplares disponíveis no Brasil".
Por exemplo, a Heineken é produzida sem quaisquer adjuntos, já a Stella possui adjuntos e conservantes. Bom, quanto a Budvar, essa com certeza é bem diferente das demais.
Não satisfeitos com esses resultados, os Loucos por Ales resolveram fazer o teste versão brasileira.
Muito confiantes de nossos poderes, aumentamos o rol de marcas incluindo a recém chegada premium lager Kirin Ichiban. Não tínhamos dúvidas que nos sairíamos bem em nosso teste cego, pelo menos, melhor do que o resultado do experimento gringo. Afinal de contas, para os três degustadores do nosso corpo técnico, a Heineken é a cerveja do dia a dia, eu, particularmente, não tenho afinidade com a Stella, e já tivemos êxito em testes cegos com pale ales, stouts e IPAs.
Piece of cake!
Nosso quarto integrante foi o responsável por servir as cervejas. Primeiramente, fizemos a análise de coloração das cervejas, escrevendo nossos palpites já nesse momento, em segredo.
Apenas uma das bebidas apresentou uma diferença de cor relevante, tendo um tom um pouco mais acobreado, menos translúcida do que as demais. A formação de espuma também não apresentou grande diferença, algumas com bolhas menores, mais cremosa, mas nada que entregasse determinada marca.
Em um segundo momento, decidimos partir para os aromas. Aqui nós imaginamos que a Budvar, como um exemplar de Pilsen Tcheca, iria apresentar os aromas característicos de lúpulos Saaz.
Pois, acreditem ou não, nada desses aromas exaltando a cerveja Tcheca, pura decepção.
Mais uma vez, palpites em segredo.
A esperança agora era a efetiva degustação, juntando todos os sentidos sensoriais. Agora vai!!
Particularmente, eu me sentia decepcionado, não conseguia identificar com precisão nenhuma das cervejas e tal fato não se alterou com a degustação. A cada gole tomado aumentavam as dúvidas e menos diferenças eram perceptíveis.
Logo, comecei a notar que isso não se dava somente por conta da nossa falta de sensibilidade ou mesmo, por essas cervejas serem tão iguais, porque todos sabemos que não o são.
Não se trata aqui do que Maurício Beltramelli gosta de chamar de torcedores de cervejas, que por algum motivo ou outro, que não a qualidade e sabor, optam por determinada cerveja em detrimento de outras de mesma linha.
Na minha opinião, particularmente em relação a essas premium lagers, o nível de carbonatação e a acidez imediatamente dessensibilizam as papilas gustativas, tornando as demais provas prejudicadas.
Aqui devemos fazer mea culpa, por não ter tentado eliminar tal fator, intercalando cada prova com água, pão e um maior espaço de tempo. Mas ainda assim, acredito piamente que os resultados não seriam tão diferentes, mesmo porque, em maior ou menor grau, nos utilizamos do pão e da água durante a degustação.
O resultado final? Acreditamos que a experiência europeia não retrata de forma fidedigna a preferência dos consumidores entre as lagers mencionadas. A carbonatação exagerada e a acidez nos mostraram que são capazes de "esconder" as diferenças e particularidades dessas cervejas. Além desses fatores, muitos outros podem ter influenciado na pesquisa gringa, já que não consta detalhes pormenorizados sobre como se procederam os testes.
Falando por mim, eu tenho certeza de que Heineken, Stella e Budvar são bem diferentes entre si.
E vocês, o que acham? Arriscariam um teste cego com essas cervejas? Vocês podem provar que são verdadeiros degustadores e conseguem descobrir qual é qual.
Fica o desafio!
Abraços.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Cerveja encorpada, tem certeza?
| Imagem: Blog Quatro Cantos do Mundo |
Sabemos que nem só de
sabor se faz uma cerveja. É comum dizer que durante uma degustação,
mais de um de nossos sentidos é envolvido; logicamente o sabor e o
aroma são os mais notáveis, entretanto, a aparência do líquido, a
formação de espuma e os sons são fatores que também influenciam a
experiência sensorial.
O assunto de hoje é
corpo, uma das características a compor a sensação táctil da
degustação. Some a carbonatação e a
temperatura da cerveja com o corpo e estará quase completo o time de
sensações que vão além do óbvio, além do sabor e do aroma.
Possivelmente a mais comum
das confusões durante a apreciação de cervejas seja o fato de
confundir uma cerveja saborosa com uma cerveja encorpada. A cerveja
encorpada é aquela que possui maior licorosidade, maior viscosidade,
e esta característica não está diretamente relacionada à
intensidade do sabor ou do amargor. Este é um conceito que foi
difundido erroneamente pelas propagandas das cervejas mais populares.
Quando a cervejaria quer dizer que lançou uma cerveja que se parece
menos com as aguadas tão conhecidas dos churrascos brasileiros ela
diz que a cerveja é encorpada, geralmente com a voz de um locutor
tentando sensualizar o termo: "Encorpaaada, saborooosa".
Opa, acabei de citar
cervejas aguadas, seria este o termo correto para designar as
american lagers e cervejas mais baratas do nosso mercado? A impressão
que temos ao tomar é exatamente esta, de uma cerveja menos
concentrada, como se fosse, realmente, mais diluída. Todavia,
tecnicamente ela não recebe mais água ou é menos alcoólica. O que
ocorre é que a presença de cereais não malteados e a baixa
quantidade de malte de cevada utilizados na preparação destas
cervejas conferem a ela um sabor menos acentuado, em prol de uma
suposta drinkability maior, uma maior refrescância.
Então, afinal, o que é
uma cerveja encorpada? Encorpada é aquela cerveja que preenche
sua boca, que demora mais para escorrer por sua garganta. A Petroleum
é uma cerveja muito encorpada, a Duvel também tem um corpo
considerável, enquanto a Brewdog Punk IPA já possui um corpo mais modesto e
as nossas baratinhas são exemplo de cerveja com pouco corpo.
Qual a sua impressão sobre o corpo das cervejas? Deixe um comentário com a cerveja mais e a menos encorpada que você já tomou.
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